Ronaldo Fenômeno abre a temporada de piadas infames

Abril 30, 2008 by maloca

Não tem como. Podem matar o Papa, podem derrubar o Lula. O assunto do ano é a encrenca em que o Ronaldo Fenômeno se meteu com os três travestis no Motel Papillon. E os trocadilhos não param.

> Sabe por que o joelho do Ronaldo não sara nunca? Sobrepeso. Na região lombar
> Em vez da mulher melancia, da mulher jaca ou da mulher melão, Ronaldo preferiu a mulher banana.
> Em Papillon, o filme, só se comia barata e rato. Cobra é a primeira vez.
> Ronaldo é realmente um fenômeno: controla seis bolas ao mesmo tempo!
> Ronaldo queria imitar o padre dos mil balões. Mas só encontrou seis.

Pintou até um cover de “Cena de Cinema” atribuída à banda cover Deião e os Ronaldos

Tava sarrando no meu carro
Achei que era menina
A minha mão em algo duro encostou
E era uma pemba

Me deu um beiço com as amigas
A carteira sumiu
Fez o avião e foi em busca do vapor
Me trouxe encrenca

Lá no quarto
eu vejo estrelas
É a maior fricção
Fico todo assado
Quando a mulher de tromba (tromba)
Vem pra me sodomizar

Tava esticando lá no quarto
Uma rapa comprida
E de repente a bicha louca surtou
E armou uma cena

Pintou PM e delegado
Morri numa grana preta
O travecão cobrou mais de cem
Não tem como convencer ninguém
Desculpa pra essa não tem
Ninguém vai ter pena

Sinal fechado

Novembro 6, 2007 by maloca

O Back in Black no som da sala era um sinal. Fora o seu primeiro vinil, ganho aos 12 anos, e ainda era um dos favoritos. Foi com aquele disco que começou a gostar de rock, antes de conhecer Led Zeppelin e Deep Purple. Se acordava irritado, extravasava com o álbum negro do AC/DC. Se precisa de energia para algo importante, era nele que buscava determinação. Os primeiros acordes, brutos e imperativos, adquiriram com o tempo um sentido especial: diziam que era hora de mudar.

Estava tudo errado. Não que sua vida fosse uma patética seqüência equívocos, como a de alguns idiotas com que esbarrou por aí. Deslizara em algumas curvas, fizera escolhas ruins como todo mundo. Incomodava-lhe sobretudo a impressão de que os erros foram poucos, mas decisivos. Olhou-se no espelho e se perguntou como aquele cabeludo delirante, aquele bonachão cheio de idéias, tornara-se ele, apático, entediado e vazio. Por que, afinal, deixara-se levar tão passivamente àquela vida anódina. Haveria tempo de mudar? Sim, havia.

Dormira mal, como tantas vezes, mas acordara determinado. Aumentou o som, tomou banho, fez a barba com a seriedade de quem toma uma decisão irrevogável. Chamaria o chefe para um café e falaria sem rodeios. Tinha alguns projetos que gostaria de realizar na empresa, desde que fosse promovido. Nada mais merecido. Dedicara muito tempo e energia àquele lugar, estava na hora de ser recompensado. Claro que poderia projetar o novo condomínio de luxo. O desleixo com o marketing pessoal o empurrara para o segundo plano, realizando projetos alheios e sentindo-se recompensado em não ser muito cobrado. Agora queria mais.

Caso contrário, pediria as contas e correria atrás. Arrumaria algum pardieiro onde passar as noites, qualquer aluguel barato estava de bom tamanho. Venderia o pouco que tinha, rasparia as contas, gastaria menos com supérfluos. Precisa criar, construir algo digno de nota, deixar sua marca, mostrar seu valor, fazer a diferença. Ou pelo menos curtir a vida. Pegaria aquele terreninho na serra, abriria um negócio, uma pousada, um restaurante, uma taberna. Qualquer coisa que o afastasse daquele rame-rame. Estava na hora de aloprar de novo. Bobagem, o condomínio seria dele, a marca da grande virada.

Quando tudo desse certo, ela voltaria.Vestiu um blazer, estava um pouco apertado, mas ainda parecia bom, só não abotoava mais. Sorveu o café, respirou fundo. Nada o demoveria. E ela voltaria. Desceu as escadas imaginando o reencontro. Alguma festa de um amigo comum, talvez. Ela perguntaria pela vida, diria ter ouvido falar que ele andara aprontando. Quem diria, logo ele. Aquele sorriso falsamente tímido e verdadeiramente encantador. O porteiro, onde estava? Droga, só faltava perder o ônibus por conta daquele abestado. Sim, bom dia, está desculpado.

Marcariam de sair, ela acabaria por sugerir e ele, contrariando a lógica, mandaria um e-mail, quem sabe ligasse. Jantar e degustação de vinho? Claro que ela aceitaria. Vislumbrou o ônibus do outro lado da rua. Era só uma corridinha, alguns passos largos, pular na calçada, dois tapas na lataria para o motorista parar. Correu. Bordeaux ou Malbec? Não, esses combinavam com carne e ela evitava carne vermelha. Tinha que comprar um livro para enófilos iniciantes para evitar uma gafe.

O chão sumiu. Subiu alguns centímetros no ar, as costelas bateram em algo morno e o rosto sentiu um baque frio. As pernas não obedeceram, sentiu uma viscosidade quente se espalhando pelo abdome, uma pontada aguda nos joelhos e nas costelas. Pelo pára-brisa, trincado pelo impacto, viu a expressão de pânico da mulher loura, os dedos trincados a segurar o volante, um grito sufocado. Reparou que ela trazia uma maquiagem  pesada demais para aquela hora. Ao guarda ela explicou que não teve como desviar o carro, não, claro que não estava correndo, não entendia como aquilo aconteceu. Pouco depois seguiram seus rumos, ela para a delegacia, ele para o IML. O acidente não lhe sairia da cabeça, assim como o estranho sorriso naquele rosto ensangüentado. Mas isso ela não contaria a ninguém, poderiam achar que estava louca.

Axiomas

Novembro 3, 2007 by maloca

Penso, logo, desisto.

A felicidade só existe no útero, na cama, e no túmulo.

Nenhuma verdade é absoluta. Nem mesmo esta.

A despedida

Outubro 25, 2007 by maloca

O abraço selou um acordo tácito. Miles, pungente, embalava os surruros que se arrastavam pela garganta, empurrados por um ímpeto que não se podia conter. Trocaram palavras de afeto. Talvez por medo de magoar o outro, talvez para não ferir a imagem condescendente que cada um fazia de si mesmo, num misto de carinho, pena, e vaidade inconfessável. Tudo permaneceria como sempre foi, prometeram, mas nada jamais seria como antes. 

(Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2004)

A hora final

Outubro 25, 2007 by maloca

Beijou-a com fome e medo de que ela mudasse de idéia e o deixasse ali, sorveu-lhe a saliva como se a morte os espreitasse. Percorreu todas as nuances de seu corpo com mãos trêmulas. Desvendou, descobriu. Sentiu descolar-se da carne e flutuar, livre, saciado, completo.  Adormeceu entre estrelas e ondulações tépidas.

A mãe bateu na porta e entrou. Viu sobre a cama o filho estirado e frio, o rosto plácido como o de uma estátua de bronze.  Um grito histérico chamou a atenção dos vizinhos.

Acordou com o telefone. Atendeu ainda trôpega de sono após varar a madrugada estudando. Uma voz grave e mecânica deu-lhe a notícia. O enterro seria às 13h, no São João Batista.  Sorriu ao lembrar das vezes em que ele bêbado dizia-se louco por ela. Buscou no armário o vestidinho preto e lamentou que o tivesse colocado para lavar.

(Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2003)

Prelúdio aos fumos

Outubro 25, 2007 by maloca

Conto as horas para chegar em casa e ficar a sós contigo. Sei que estás a minha espera, de branco, silenciosa como quem conhecesse cada momento a seguir, não porque o previsse, mas porque se tivesse acostumado à repetição de alguém metódico em suas manias. Com mãos delicadas te envolvo, inclino a cabeça e te ofereço meus lábios, tão gentilmente quanto da primeira vez. Deixo que o fogo se consuma.

Então sinto meu corpo. Rápido você me domina e faz esquecer. Uma onda me percorre sutilmente e limpa da tensão cada músculo, cada fibra, até o relaxamento tépido e confortável. Tudo é lentidão e murmúrio, os sons se esparramam pelo ar como um líquido viscoso e acariciam meus ouvidos. Quisera que cada minuto lá fora fosse assim… mas não, não há lá fora. Nada importa. Só existe aqui.

De repente tenho a certeza de que é perda de tempo querer, pensar, lamentar. Tudo é simples. Pelo menos agora. Satisfeito, acaricio-te com meus dedos úmidos, afogo-te em minha saliva e de pronto o fogo se extingue. Acendo um cigarro e me espreguiço. Sinto uma calma essencial com força de uma verdade absoluta que vez por outra se deixasse esconder em pensamentos a esmo, que brotam e morrem sem razão de ser, inúteis. Abraço o travesseiro e me deixo levar. Amanhã será tudo como hoje. Horas de vida autômata embaladas pela ânsia de te encontrar de novo.

(Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2004)

Eis a questão

Outubro 23, 2007 by maloca

Quem muito se pergunta sobre o sentido da vida corre o risco de perder a vida numa busca sem sentido. Experimente abordar um desconhecido na rua e perguntar-lhe o que ele quer da vida. A esmagadora maioria responderá de pronto, talvez com uma ponta de incredulidade ante pergunta tão óbvia: ser feliz. Sob o véu da falsa simplicidade, a frase abrange o universo. A casa com jardim onde brincam filhos e netos num domingo de sol e preguiça, o carinho certo amada ao cair da noite, a carreira bem-sucedida e premiada com o reconhecimento de seus pares, viagens pelo mundo num eterno descobrir de novos lugares e povos. Cada um sonha a felicidade como uma coleção de coisas a adquirir, experimentar, conquistar, tal uma criança sonha em completar um álbum de figurinhas. E assim traçamos nosso rumo sobre a Terra. A querer, querer e querer mais.

O querer é legítimo, tão parte da constituição humana quanto as vísceras e a consciência. E tão inevitável quanto a fome, que cedo ou tarde volta a reclamar atenção, pouco importa se o estômago foi saciado, empanturrado ou distraído na última refeição. Ao contrário da vida humana que orienta e dá sentido, o querer não tem fim. Alcançado um objetivo, saciado um desejo, outro vem tomar-lhe o lugar, retomando o ciclo, impulsionando a roda da vida. Por mais que se preencham páginas, o álbum de figurinhas não chega ao fim.

Tanto pior se lhe arrancam uma das páginas. A hipoteca vencida que nos toma a casa e o jardim, a amada que, por desatino, capricho ou mágoa, já não nos espera no fim da tarde, a empresa que corta custos e, dano colateral, deita fora a carreira erguida com anos de esforço, a viagem adiada por motivos mais urgentes (hipoteca a pagar, filhos a criar, carreira a manter?).

Querer e nunca haver tido ou ter e perder: o que é pior? Dores distintas, talvez, mas, inegavelmente, dor. Melhor, então, nada querer. Vagar sonâmbulo pelos dias, num misto de torpor e deslumbramento, mirar o céu como quem o visse pela primeira vez, extasiar-se com o balançar vadio de folhagens quaisquer ao meio-dia. Quem não quer não tem; quem não tem, não perde; quem não perde, não sofre. Seria um consolo. Mas sorrateira e latente, a espera de um vacilo da consciência para fustigar certeira e exigente como a fome, a pergunta resiste. Estou vivo ou sou um cadáver que ainda respira? Querer ou não querer: eis a questão.