O Back in Black no som da sala era um sinal. Fora o seu primeiro vinil, ganho aos 12 anos, e ainda era um dos favoritos. Foi com aquele disco que começou a gostar de rock, antes de conhecer Led Zeppelin e Deep Purple. Se acordava irritado, extravasava com o álbum negro do AC/DC. Se precisa de energia para algo importante, era nele que buscava determinação. Os primeiros acordes, brutos e imperativos, adquiriram com o tempo um sentido especial: diziam que era hora de mudar.
Estava tudo errado. Não que sua vida fosse uma patética seqüência equívocos, como a de alguns idiotas com que esbarrou por aí. Deslizara em algumas curvas, fizera escolhas ruins como todo mundo. Incomodava-lhe sobretudo a impressão de que os erros foram poucos, mas decisivos. Olhou-se no espelho e se perguntou como aquele cabeludo delirante, aquele bonachão cheio de idéias, tornara-se ele, apático, entediado e vazio. Por que, afinal, deixara-se levar tão passivamente àquela vida anódina. Haveria tempo de mudar? Sim, havia.
Dormira mal, como tantas vezes, mas acordara determinado. Aumentou o som, tomou banho, fez a barba com a seriedade de quem toma uma decisão irrevogável. Chamaria o chefe para um café e falaria sem rodeios. Tinha alguns projetos que gostaria de realizar na empresa, desde que fosse promovido. Nada mais merecido. Dedicara muito tempo e energia àquele lugar, estava na hora de ser recompensado. Claro que poderia projetar o novo condomínio de luxo. O desleixo com o marketing pessoal o empurrara para o segundo plano, realizando projetos alheios e sentindo-se recompensado em não ser muito cobrado. Agora queria mais.
Caso contrário, pediria as contas e correria atrás. Arrumaria algum pardieiro onde passar as noites, qualquer aluguel barato estava de bom tamanho. Venderia o pouco que tinha, rasparia as contas, gastaria menos com supérfluos. Precisa criar, construir algo digno de nota, deixar sua marca, mostrar seu valor, fazer a diferença. Ou pelo menos curtir a vida. Pegaria aquele terreninho na serra, abriria um negócio, uma pousada, um restaurante, uma taberna. Qualquer coisa que o afastasse daquele rame-rame. Estava na hora de aloprar de novo. Bobagem, o condomínio seria dele, a marca da grande virada.
Quando tudo desse certo, ela voltaria.Vestiu um blazer, estava um pouco apertado, mas ainda parecia bom, só não abotoava mais. Sorveu o café, respirou fundo. Nada o demoveria. E ela voltaria. Desceu as escadas imaginando o reencontro. Alguma festa de um amigo comum, talvez. Ela perguntaria pela vida, diria ter ouvido falar que ele andara aprontando. Quem diria, logo ele. Aquele sorriso falsamente tímido e verdadeiramente encantador. O porteiro, onde estava? Droga, só faltava perder o ônibus por conta daquele abestado. Sim, bom dia, está desculpado.
Marcariam de sair, ela acabaria por sugerir e ele, contrariando a lógica, mandaria um e-mail, quem sabe ligasse. Jantar e degustação de vinho? Claro que ela aceitaria. Vislumbrou o ônibus do outro lado da rua. Era só uma corridinha, alguns passos largos, pular na calçada, dois tapas na lataria para o motorista parar. Correu. Bordeaux ou Malbec? Não, esses combinavam com carne e ela evitava carne vermelha. Tinha que comprar um livro para enófilos iniciantes para evitar uma gafe.
O chão sumiu. Subiu alguns centímetros no ar, as costelas bateram em algo morno e o rosto sentiu um baque frio. As pernas não obedeceram, sentiu uma viscosidade quente se espalhando pelo abdome, uma pontada aguda nos joelhos e nas costelas. Pelo pára-brisa, trincado pelo impacto, viu a expressão de pânico da mulher loura, os dedos trincados a segurar o volante, um grito sufocado. Reparou que ela trazia uma maquiagem pesada demais para aquela hora. Ao guarda ela explicou que não teve como desviar o carro, não, claro que não estava correndo, não entendia como aquilo aconteceu. Pouco depois seguiram seus rumos, ela para a delegacia, ele para o IML. O acidente não lhe sairia da cabeça, assim como o estranho sorriso naquele rosto ensangüentado. Mas isso ela não contaria a ninguém, poderiam achar que estava louca.