Posts de Outubro, 2007

A despedida

Outubro 25, 2007

O abraço selou um acordo tácito. Miles, pungente, embalava os surruros que se arrastavam pela garganta, empurrados por um ímpeto que não se podia conter. Trocaram palavras de afeto. Talvez por medo de magoar o outro, talvez para não ferir a imagem condescendente que cada um fazia de si mesmo, num misto de carinho, pena, e vaidade inconfessável. Tudo permaneceria como sempre foi, prometeram, mas nada jamais seria como antes. 

(Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2004)

A hora final

Outubro 25, 2007

Beijou-a com fome e medo de que ela mudasse de idéia e o deixasse ali, sorveu-lhe a saliva como se a morte os espreitasse. Percorreu todas as nuances de seu corpo com mãos trêmulas. Desvendou, descobriu. Sentiu descolar-se da carne e flutuar, livre, saciado, completo.  Adormeceu entre estrelas e ondulações tépidas.

A mãe bateu na porta e entrou. Viu sobre a cama o filho estirado e frio, o rosto plácido como o de uma estátua de bronze.  Um grito histérico chamou a atenção dos vizinhos.

Acordou com o telefone. Atendeu ainda trôpega de sono após varar a madrugada estudando. Uma voz grave e mecânica deu-lhe a notícia. O enterro seria às 13h, no São João Batista.  Sorriu ao lembrar das vezes em que ele bêbado dizia-se louco por ela. Buscou no armário o vestidinho preto e lamentou que o tivesse colocado para lavar.

(Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2003)

Prelúdio aos fumos

Outubro 25, 2007

Conto as horas para chegar em casa e ficar a sós contigo. Sei que estás a minha espera, de branco, silenciosa como quem conhecesse cada momento a seguir, não porque o previsse, mas porque se tivesse acostumado à repetição de alguém metódico em suas manias. Com mãos delicadas te envolvo, inclino a cabeça e te ofereço meus lábios, tão gentilmente quanto da primeira vez. Deixo que o fogo se consuma.

Então sinto meu corpo. Rápido você me domina e faz esquecer. Uma onda me percorre sutilmente e limpa da tensão cada músculo, cada fibra, até o relaxamento tépido e confortável. Tudo é lentidão e murmúrio, os sons se esparramam pelo ar como um líquido viscoso e acariciam meus ouvidos. Quisera que cada minuto lá fora fosse assim… mas não, não há lá fora. Nada importa. Só existe aqui.

De repente tenho a certeza de que é perda de tempo querer, pensar, lamentar. Tudo é simples. Pelo menos agora. Satisfeito, acaricio-te com meus dedos úmidos, afogo-te em minha saliva e de pronto o fogo se extingue. Acendo um cigarro e me espreguiço. Sinto uma calma essencial com força de uma verdade absoluta que vez por outra se deixasse esconder em pensamentos a esmo, que brotam e morrem sem razão de ser, inúteis. Abraço o travesseiro e me deixo levar. Amanhã será tudo como hoje. Horas de vida autômata embaladas pela ânsia de te encontrar de novo.

(Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2004)

Eis a questão

Outubro 23, 2007

Quem muito se pergunta sobre o sentido da vida corre o risco de perder a vida numa busca sem sentido. Experimente abordar um desconhecido na rua e perguntar-lhe o que ele quer da vida. A esmagadora maioria responderá de pronto, talvez com uma ponta de incredulidade ante pergunta tão óbvia: ser feliz. Sob o véu da falsa simplicidade, a frase abrange o universo. A casa com jardim onde brincam filhos e netos num domingo de sol e preguiça, o carinho certo amada ao cair da noite, a carreira bem-sucedida e premiada com o reconhecimento de seus pares, viagens pelo mundo num eterno descobrir de novos lugares e povos. Cada um sonha a felicidade como uma coleção de coisas a adquirir, experimentar, conquistar, tal uma criança sonha em completar um álbum de figurinhas. E assim traçamos nosso rumo sobre a Terra. A querer, querer e querer mais.

O querer é legítimo, tão parte da constituição humana quanto as vísceras e a consciência. E tão inevitável quanto a fome, que cedo ou tarde volta a reclamar atenção, pouco importa se o estômago foi saciado, empanturrado ou distraído na última refeição. Ao contrário da vida humana que orienta e dá sentido, o querer não tem fim. Alcançado um objetivo, saciado um desejo, outro vem tomar-lhe o lugar, retomando o ciclo, impulsionando a roda da vida. Por mais que se preencham páginas, o álbum de figurinhas não chega ao fim.

Tanto pior se lhe arrancam uma das páginas. A hipoteca vencida que nos toma a casa e o jardim, a amada que, por desatino, capricho ou mágoa, já não nos espera no fim da tarde, a empresa que corta custos e, dano colateral, deita fora a carreira erguida com anos de esforço, a viagem adiada por motivos mais urgentes (hipoteca a pagar, filhos a criar, carreira a manter?).

Querer e nunca haver tido ou ter e perder: o que é pior? Dores distintas, talvez, mas, inegavelmente, dor. Melhor, então, nada querer. Vagar sonâmbulo pelos dias, num misto de torpor e deslumbramento, mirar o céu como quem o visse pela primeira vez, extasiar-se com o balançar vadio de folhagens quaisquer ao meio-dia. Quem não quer não tem; quem não tem, não perde; quem não perde, não sofre. Seria um consolo. Mas sorrateira e latente, a espera de um vacilo da consciência para fustigar certeira e exigente como a fome, a pergunta resiste. Estou vivo ou sou um cadáver que ainda respira? Querer ou não querer: eis a questão.