Eis a questão

By maloca

Quem muito se pergunta sobre o sentido da vida corre o risco de perder a vida numa busca sem sentido. Experimente abordar um desconhecido na rua e perguntar-lhe o que ele quer da vida. A esmagadora maioria responderá de pronto, talvez com uma ponta de incredulidade ante pergunta tão óbvia: ser feliz. Sob o véu da falsa simplicidade, a frase abrange o universo. A casa com jardim onde brincam filhos e netos num domingo de sol e preguiça, o carinho certo amada ao cair da noite, a carreira bem-sucedida e premiada com o reconhecimento de seus pares, viagens pelo mundo num eterno descobrir de novos lugares e povos. Cada um sonha a felicidade como uma coleção de coisas a adquirir, experimentar, conquistar, tal uma criança sonha em completar um álbum de figurinhas. E assim traçamos nosso rumo sobre a Terra. A querer, querer e querer mais.

O querer é legítimo, tão parte da constituição humana quanto as vísceras e a consciência. E tão inevitável quanto a fome, que cedo ou tarde volta a reclamar atenção, pouco importa se o estômago foi saciado, empanturrado ou distraído na última refeição. Ao contrário da vida humana que orienta e dá sentido, o querer não tem fim. Alcançado um objetivo, saciado um desejo, outro vem tomar-lhe o lugar, retomando o ciclo, impulsionando a roda da vida. Por mais que se preencham páginas, o álbum de figurinhas não chega ao fim.

Tanto pior se lhe arrancam uma das páginas. A hipoteca vencida que nos toma a casa e o jardim, a amada que, por desatino, capricho ou mágoa, já não nos espera no fim da tarde, a empresa que corta custos e, dano colateral, deita fora a carreira erguida com anos de esforço, a viagem adiada por motivos mais urgentes (hipoteca a pagar, filhos a criar, carreira a manter?).

Querer e nunca haver tido ou ter e perder: o que é pior? Dores distintas, talvez, mas, inegavelmente, dor. Melhor, então, nada querer. Vagar sonâmbulo pelos dias, num misto de torpor e deslumbramento, mirar o céu como quem o visse pela primeira vez, extasiar-se com o balançar vadio de folhagens quaisquer ao meio-dia. Quem não quer não tem; quem não tem, não perde; quem não perde, não sofre. Seria um consolo. Mas sorrateira e latente, a espera de um vacilo da consciência para fustigar certeira e exigente como a fome, a pergunta resiste. Estou vivo ou sou um cadáver que ainda respira? Querer ou não querer: eis a questão.

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