A hora final

By maloca

Beijou-a com fome e medo de que ela mudasse de idéia e o deixasse ali, sorveu-lhe a saliva como se a morte os espreitasse. Percorreu todas as nuances de seu corpo com mãos trêmulas. Desvendou, descobriu. Sentiu descolar-se da carne e flutuar, livre, saciado, completo.  Adormeceu entre estrelas e ondulações tépidas.

A mãe bateu na porta e entrou. Viu sobre a cama o filho estirado e frio, o rosto plácido como o de uma estátua de bronze.  Um grito histérico chamou a atenção dos vizinhos.

Acordou com o telefone. Atendeu ainda trôpega de sono após varar a madrugada estudando. Uma voz grave e mecânica deu-lhe a notícia. O enterro seria às 13h, no São João Batista.  Sorriu ao lembrar das vezes em que ele bêbado dizia-se louco por ela. Buscou no armário o vestidinho preto e lamentou que o tivesse colocado para lavar.

(Rio de Janeiro, 24 de outubro de 2003)

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