Prelúdio aos fumos

Conto as horas para chegar em casa e ficar a sós contigo. Sei que estás a minha espera, de branco, silenciosa como quem conhecesse cada momento a seguir, não porque o previsse, mas porque se tivesse acostumado à repetição de alguém metódico em suas manias. Com mãos delicadas te envolvo, inclino a cabeça e te ofereço meus lábios, tão gentilmente quanto da primeira vez. Deixo que o fogo se consuma.

Então sinto meu corpo. Rápido você me domina e faz esquecer. Uma onda me percorre sutilmente e limpa da tensão cada músculo, cada fibra, até o relaxamento tépido e confortável. Tudo é lentidão e murmúrio, os sons se esparramam pelo ar como um líquido viscoso e acariciam meus ouvidos. Quisera que cada minuto lá fora fosse assim… mas não, não há lá fora. Nada importa. Só existe aqui.

De repente tenho a certeza de que é perda de tempo querer, pensar, lamentar. Tudo é simples. Pelo menos agora. Satisfeito, acaricio-te com meus dedos úmidos, afogo-te em minha saliva e de pronto o fogo se extingue. Acendo um cigarro e me espreguiço. Sinto uma calma essencial com força de uma verdade absoluta que vez por outra se deixasse esconder em pensamentos a esmo, que brotam e morrem sem razão de ser, inúteis. Abraço o travesseiro e me deixo levar. Amanhã será tudo como hoje. Horas de vida autômata embaladas pela ânsia de te encontrar de novo.

(Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2004)

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